Deixo aqui um pouco de mim. Deixe-me um pouco de você!




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Cansa-me os medos
Cansa-me as metades
Cansa-me os pouquinhos
Sou do desafio
Sou do inteiro
Sou do mais
Não sou do exagero
Mas sou do que quero
Com vontade!
O menos dá golpes frios
E cansa a vontade.

(J.L.)




O que fazer quando tudo parece tão longe
E a fadiga já não quer te deixar ir adiante?
Quando os passos já querem morrer
Aqui e agora, neste chão?

Quando os olhos já não enxergam o horizonte
E o sol já não tem o mesmo brilho
E o suor se apodera do corpo
E a dor da caminhada machuca demais? 

Quando a estrada não tem mais atrativo
E não há flores, só pedras e tropeços
E calos que viram feridas por uma insistência
Talvez vã insistência

Viver e viver e para quê?
Se não há o que se esperar?
Se não há a quem amar?
Se não há onde se quer chegar?

É uma linha que emaranhou
E os nós de tão nós não se desfaz
É vida que um dia foi bonita
E que agora não é mais

É caminho que foi perdido
É sonho que foi esquecido
E se houver esperança deve ser para além
Onde a morte é consolo e descanso.

(J.L.)




Tanta correria

Para quê?

Dias agitados tem sido os meus

Ligeiramente tomados

A noite chega

Demasiadamente longa

Sem sono

Num disparate de pensamentos

De uma mente cansada sem descanso.

(J.L.)




Indo devagar

Não tenho mais pressa para nada

Tão cansada deste engano

Da pressa que não nos permite o conhecer

Cada coisa no seu tempo

Na sua hora

Nem pressa para rir

Nem pressa para chorar

Nem pressa para amar ou desamar

Nem pressa com o que será

Hoje, exatamente hoje

Que me venha o que for

Não mais me surpreendo

Com as inconstâncias de cada ser

Cada um é um

No seu direto de viver

Se hoje não tenho pressa

Acredite

Já cansei de correr

E só cansei...


(J.L)





E tudo se vai

E muito fica no passado

As vezes tenho saudades de mim

As vezes não tenho saudade de nada

Fico a mercê da escolha

Quero ir mais além

Onde não me prendo a ninguém

Onde detenho certo porém

Vou-me

Por vezes cansada e fadigada

As vezes forte como a correnteza

As vezes choro de tanta fragilidade

Não devo parar

E é difícil andar

Onde os pés desejam descansar

Onde a esperança esquece de florar

A vida passando

E eu saindo de mim

As vezes fugindo

Onde não devo encontrar-me.

(J.L.)



Não há como negar

Meus pés estão cansados

A caminhada me tem abatido

E a sede tem me debilitado

As trilhas me tem doido

Há espinhos em alguns trechos

Às vezes não encontro abrigo

Sol e chuva tenho enfrentado

Enveredo-me querendo o norte

Vou seguindo o horizonte

Vou escalando os montes

Nas mãos a garra do realizar

Nos olhos os sonhos ponderado

No coração o pulsar do caminhar...

(J.L.)



Eu olho a longa estrada

Estou nela

Andando sozinha

Eu olho ao fim

Não tem fim

Então sigo

Andando

Sem pressa

Sem esperar

Até sem querer chegar

O bom mesmo é caminhar

E ver que tudo fica para trás

Caminho até a exaustão

Sentindo as dores pernas

Doe-me ter que voltar

Para a vida que faz chorar

Para o quarto solitário

Para os poemas impertinentes

Para os pensamentos insolentes

A estrada não me pertence

Eu caminho por caminhar

Quando paro, cansada eu penso

Cansei de caminhar.


(J.L.)



O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

( Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa )