Deixo aqui um pouco de mim. Deixe-me um pouco de você!







São pelas palavras nunca ditas
Pelos abraços que não se encontrarão
Pelos beijos que ficaram pra depois
Pelo tempo pouco dedicado

Pelo sorriso meio sem graça
Quando teve o puxão de orelha
Pelos conselhos infindos
Com o objetivo de ensinar

É pelo sentimento reservado
Aquela vergonha de dizer Eu te amo
É pelo agradecimento que ficou engasgado
E pela lágrima sufocada

Quando a morte veio e tirou de mim
O bem amado mal amado
O herói da minha vida
O gene da minha história

Desperdicei tanto tempo
Para reconhecer agora
Diante do funeral
Trazendo o que devia

Flores nas mãos que não dei em vida
Admiração e gratidão que prendi tanto tempo
E um adeus tão cedo e expresso
Nas lágrimas de saudade.


(J.L.)




O que fazer quando tudo parece tão longe
E a fadiga já não quer te deixar ir adiante?
Quando os passos já querem morrer
Aqui e agora, neste chão?

Quando os olhos já não enxergam o horizonte
E o sol já não tem o mesmo brilho
E o suor se apodera do corpo
E a dor da caminhada machuca demais? 

Quando a estrada não tem mais atrativo
E não há flores, só pedras e tropeços
E calos que viram feridas por uma insistência
Talvez vã insistência

Viver e viver e para quê?
Se não há o que se esperar?
Se não há a quem amar?
Se não há onde se quer chegar?

É uma linha que emaranhou
E os nós de tão nós não se desfaz
É vida que um dia foi bonita
E que agora não é mais

É caminho que foi perdido
É sonho que foi esquecido
E se houver esperança deve ser para além
Onde a morte é consolo e descanso.

(J.L.)